No próximo domingo, dia 27, o engenheiro Chico Fortes completaria 80 anos. O blog homenageia o ilustre resendense, publicando uma carta de seu filho, Daniel Fortes, (foto) que conta ao pai, morto há oito anos, o que aconteceu em Resende, no Brasil e no mundo.
CHICO FORTES – OITENTA ANOS
Resende, 27 de setembro de 2009.
Resende, 27 de setembro de 2009.
Caríssimo pai!
Tem esta a finalidade mor de parabenizá-lo pelos oitenta anos de seu nascimento!… Faça-se registrar: em 27 de setembro de 1929, ali no antigo Sitiozinho União do Alambari (na realidade, como o senhor sempre me alertou: “união do Alambari com o Alambarizinho”), pouco antes da Serrinha – à direita de quem vem de Resende/Penedo –, vinha ao mundo o sétimo filho de Francisco de Assis Fortes e Nicolina Taranto Fortes, ainda assim, batizado Francisco Fortes Filho, e eternizado por estas plagas – e como o senhor sempre preferiu –, como Chico Fortes, o resendense menino da roça, pés descalços, que culminou sua trajetória, entre outros feitos, como o comandante mor das obras civis de Itaipu.
Mas não posso me furtar, aproveitando-me desta missiva, e dos já oito anos que o senhor viajou, para colocar-lhe a par das novidades, que ouso adiantar não serem poucas… Resende e o mundo mudaram!!!..
Menos de duas semanas depois de sua já mencionada viagem, no 11 de setembro de 2001, atentados eclodiram contra as “Tôrres Gêmeas”. O mundo, boquiaberto, assistiu, ao vivo, a maior potência mundial econômica e bélica da História, ver ferida de morte, um de seus mais representativos símbolos – o World Trade Center –, e por aviões de sua própria frota comercial!!!…
Nos dias atuais, sua sempre tão amada Resende completa duzentos e oito anos de emancipação, depois de amanhã… Os preparativos para as festividades no Parque de Exposições que leva seu nome estão, soube, mais que alinhavados.
Respiramos evidentes sinais de progresso! Na Coronel Mendes mesmo, ali no Manejo, “pipocam” novas agências bancárias e o processo de industrialização vem cumprindo-se célere e irreversível. Aliás, a Votorantin Metais acaba de inaugurar sua Siderúrgica, já com previsão de funcionamento, a plena carga, no início do ano que vem. E sua localização é exatamente naquele imenso “varjão” que formava sua não menos amada e sempre reverenciada Fazenda Aliança.
Já em âmbito nacional, o Brasil já não vem merecendo mais a sentença de “país do futuro”, que acompanhou bem mais a sua, mas também minha geração. O futuro chegou, pai! Atravessamos, há pouco, crise financeira mundial de proporções históricas, somente comparável à famigerada crise de 1929. E nosso Brasil foi o último a entrar e o primeiro a dar evidentes sinais de estar saindo de tal crise. Fazemos parte, ainda, e como primeira consoante, do BRIC, sigla que engloba as principais novas potências emergentes mundiais, na não menos nova, ordem econômica mundial que vem desenhando-se.
E isso tudo com o Lula na presidência (é, meu querido, como profetizou meu guru Nélson Rodrigues: a Esquerda tomou o lugar da Direita)! Mas uma Esquerda respaldada por ares progressistas, que, em setores vitais, percebe os movimentos históricos recentes e irreversíveis, como a internet, a globalização, entre outros, e tenta transitar entre estas contradições. E não bastasse, pai, nosso democraticamente eleito presidente, num rasgo de Estadista, manteve a literal autonomia do Banco Central, presidido por um “ex-tucano”, único membro do “staff” principal do governo brasileiro, desde o primeiro dia do mandato presidencial, há oito anos. Tudo isto, caríssimo, mesmo com nosso Brasil rodeado por presidentes de alguns de nossos vizinhos, auto-intitulados “revolucionários bolivarianos”, que evocam, rancorosos, uma guinada à Esquerda para a América Latina (mas que, pelo menos para este teu filho aqui, evocam, isto sim, facetas historicamente condenáveis do passado, rasteiras e populistas). E, junto, ainda, a escândalos internos mirabolantes de corrupção, e com o Lula cercado de inúmeras “viuvinhas do Muro de Berlim”.
E olha só mais essa novidade, que o senhor, eternal e convicto democrata, certamente se regozijará: os Estados Unidos elegeram, ano passado, seu primeiro presidente negro, e que não bastasse, tem Hussein no sobrenome. Ou seja: com a respeitosa e não menos devida dimensão histórica, o cara é a própria personificação do tão propalado “excluído”, ou da “classe proletária oprimida”, entre outros chavões esquerdistas mores. Só a Liberal Democracia mesmo para proporcionar tal tento, colocando Barack Hussein Obama (é este o nome dele), à frente da “classe dominante” na ainda, e por enquanto, maior potência mundial. Polêmicas e controvérsias à parte, e recorrendo, mais uma vez, a meu guru tupiniquim, acreditarei e acreditaremos sempre: “a liberdade é”, decididamente, “mais importante que o pão” nosso de cada dia.
Finalmente, meu pai, arrematando estas tantas novidades, confesso que a paisagem, aqui da Pindorama, também mudou, bastante… A tal fábrica da Votorantin é um gigante de concreto. A magnitude da obra me é inevitavelmente provocativa. Tão compatível com sua trajetória de vida, épica, grandiloquente… Mas nada que me impeça de avistar, vez ou outra, a Serra da Mantiqueira, em toda sua maior magnitude, amanhecendo imponente, vez ou outra, em dias ensolarados… E as garças, pai, todos os finais de tarde, continuam sobrevoando-nos, mesmo tendo que refazer a trajetória que o senhor tanto lembra, desviando do concreto da fábrica, e seguindo, decididas, na direção do Paraíba.
Por ora é isto, meu saudoso amigo e confidente. “Qualquer dia a gente se encontra”.
Seu filho,
Daniel
Daniel
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